31 de outubro de 2012

Olhos


Sou a cantiga leve das florestas, dos campos e jasmins. A brisa leve sobre as folhas eriçadas pela forte neblina. As gotas de orvalho, cristalinas em argênteo fruir nas flores; cantam gaivotas ao longe, mas aqui, apenas vivem as corujas.
Lado a lado, comportam-se, ora grande olhos, ora longa calda. Esta dos felinos sorrateiros e misteriosos; aqueles das corujas, ágeis, rápidas e sábias. Ambos noite, lugar pleno: o espaço desejado.
Desce a chuva então, das gotas grossas e lua cheia. Sussurra o vento e a noite se fecha. Vezes correm esquilos a seus campos seguros, vezes saem das casas a deliciar-se nas estrelas da colina.

Engrossa gotas: até as cobras se escondem. Nestas vezes, fogueiras correm chamas de difícil tento, então acendem-se velas, ou fecha-se a escuridão soberana. Ninguém deseja infringir a fúria das flores, que dançam forte ao nutar do cenário. Aí somos tal as águas do riacho claro, grandes as formas, pequenas as pretensões, mínimos os humores. Dança-se em silêncio e a pura melodia é formada, já que as melhores músicas são as que tocam o silêncio da alma.



Fica-se bem assim.
Feliz Samhain!

27 de outubro de 2012

Casa escura


Agora vejo páginas em branco e não resisto ao desejo: escrevo mesmo.
Aqui estão os mesmos espaços e tempos que me fazem assim ser: Eu e eu.
Dificulta-me a vida estudantil estas variações repentinas de ânimo. E por ânimo digo todo ele, todinho. Nem comer, estudar, dormir... nada apetece. Fico por escrever mesmo, que sempre foi a melhor forma de fugir de mim mesma, entrando mais fundo no meu próprio ser.
Há um certo medo do que pode ser encontrado, mas nada mais do que possa ser perdido. Antes encontrar que perder, antes terror que vazio.
O vazio nada quer, nada move, nada é. Fica lá simplesmente em si, não pede atenuantes, nem bocejos, nem desejo algum. Vazio é o desespero maior, é sim. Aquele não remediável, sumindo e aparecendo do mesmo ponto. É difícil assim. Gostaria de saber ao menos o que gera ou gerou isso em mim; este desespero agudo da solidão.
Ela chega, basta que todos se vão. E fica. Sei racionalmente que um ou outro chegará ao fim do dia, ou um dia qualquer, sei que ainda posso andar por aí e encontrar amigos, que posso telefonar e ouvir vozes reconfortantes; mas de nada adianta. A sensação continua e continua, permanece inalterada profunda encravada no peito. Aí escrevo. Aí escrevo mais. Talvez assim crie personas novas a povoar o vazio da solidão.

23 de outubro de 2012

Paixões, colchões, limões



Deixem todos, deixem ir, são estes, aqueles e novamente então.
Deixem, passam, logo então, buscam, latem e correm mão;
Deixem as deixas de seus "entões", madeixas e vento mergulhe: chão.

Gostem, amem, idolatrem, suicide.
Gosem, clamem, sussurrem, grite.
Mostrem seus "entões", escancarem, desnudem, desbrave!


Sois, sóis, desconexos, egoístas, "estrelinhas";
Ignore, reprovando, mas more, more ainda.
Xingue, palpite, bata, espanque, mate.
Mas ainda mora, ainda mora e mora e cora: Aí.

Queimam-se fotos, retratos, sorrisos, mensagens, presentes, passados...
Mas das cinzas nascem, resurgem, e brotam, e crescem, fornicam; futuros.
Cansados, casados; comprados. Mas vive e mora e corre ainda e ainda; ainda:
Existe e vida vivida é triste.

30 de agosto de 2012

Fita fita

Tudo se vai. Tudo passa.

Nada ficou ou fica do que um dia foi, nem a memória fica, nem o cheiro, nem a imagem fica. Lembranças que nada, são criações de nossa mente sonhadora, que realidade nada. Não são imagens do ontem, não há ontem; são criação e representação  nova do que se acha passado. Nada fica, nada.
Nem o "eu", nem o "ele", ou ela, eles, nós... e por mais ainda, aquilo que surgiu já se esvai por natureza. Efêmero diria-se, mas nem isso. Antes de sê-lo já sumiu de todo. Já sumiu e some e some, mais some que aparece. Não há pessimismo, dor; não há amor ou vigor. Nem isto ou aquilo, nada.
 Tudo volta ao nada de onde surgiu. Só o Nada fica.

20 de agosto de 2012

Eixo

Somos nós os condenados.
Somos nós os absoltos.
A perdição e o encontro...
tudo.

Suas grandezas esvaem-se,
algum dia existiram?
Suas mentes deformam-se,
algum dia já feitas?
Seus corpos enforcam-se.
Já respiraram?

Não.
Não;
não.
Jamais.

Já mais foram densos,
mais perdidos,
mais vazios, 
menos soltos.
Foram-se junto ao vento,
de outonos
e verões.
Foram-se eles, 
voltaram aqueles 
e jamais deixaram-se então.

Estavam ali, sempre.
Engraçado, não?

Quando choravam-se
ali pranteavam juntos.
Quando clamavam-se,
ali mergulhavam juntos.
Era solidão,
que solidão!

Amor verdadeiro é aquele sozinho.
Aquele vazio.
Inexistente.

Ninguém existe,
ninguém ama...

O tempo não entende essas coisas...


Dor.
O presságio dos desesperados.
O palor dos condenado.
A falta.

Silencio,
vazio escuridão;
calafrios.

Desespero.
Mordaz.

Tudo igual a nada,
dele surge,
e finda.
É desespero o silencio,
dele existe e desaparece.

Granadas caem na paz;
explosões ecoam na guerra.



"A rosa hereditária

A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada"



Sem tempo, nada existe;
e tempo, amor não é.
Não é!  


Herdam-se os olhos, a boca, os braços, os pés... encontram-se as marcas, feições, gestos. Nucleicos ou divinos, formam-se os seres. Que seres! Audazes eles, grandes até. Quem sabe seus postos, corpos, criem-se mais pelo desejo ainda de ainda e ainda ser. Quem sabe os amores, marquem-se fogos, jogos, logos, por desejar aparecer, perecer, morrer. As centelhas queimam e marcam os seus tênues; a força é fraca e inexata. Perfumes poucos, entram, ficam; mas exageram e horrorizam. Apenas francas marcas permanecem, não as do tempo. São as radios, são as ativas; fitam, fixam, mixam; da fissão, fusão, paixão. Fica com tempo, sem tempo, sem hora ou demora. Fica, apenas fica... mas o tempo, ah! o tempo? O tempo não entende essas coisas.


11 de agosto de 2012

Não encontrei o que procurava, apenas mais dúvidas despontaram do armário de respostas. Então pensei: "só existem interrogações!" Aí descobri uma exclamação.
rs

16 de junho de 2012

Ainda

Beleza grande. Cada folha um cadafalso, sim; mas que seriam dos começos sem seus fins? O desejoso saber da morte ali estava em meu primeiro escrito, e primeiro amor nunca se esquece. Continuo.

31 de maio de 2012

30 de maio de 2012

Nada



Dor. Pesar.
Descontentamento,
raiva.
Tristeza.
Perdão.

Gozo das formas poucas,
da grama fosca,
do mar condão.


Solidão.


Frios do sul,
amena cor.
Paixão.


Fluxo.


Contido morte,
fusão fruir,
coração.

Confusão.

Infinito, além.
Desvida, cego, 
razão.

Amor

Fundo mais,
além do sim,
maior que não.


vida.
Nascer,
forma.
Feição.


Adeus.
Há deus,
não.



27 de maio de 2012

Ceifeiro


Desilusão;
por que tardas tu em corações possuídos de esperanças?
enquanto corres tempos outros, 
cresce o caos do último dos presentes de Pandora.

Tantos absortos no jamais;
a perdição seria a vitória dos fortes,
dos vivos,
sobre a morte plena.

Mas é querido burlá-la de fato?
Se nos é maior fruição,
o sabor das faces últimas,
dos tempos findos;
o adeus.

Vertigem de salto a precipício solto,
como amar ser livre,
como desfalecer sentidos;
e
 respirar.
Finalmente.


Já então, desejo fixo;
variáveis nascentes grandes, 
mas nada sobrepõe-se ao mérito este:
amor desamparo,
perdição  --  encontro.

Verdejante, esperança dos destinados
Já que aos males, o que resta é a morte.
Seu doce sabor sob gostos tantos,
não desacordo com vida é.
"O mel, é parte do fel".

Efêmeras partes,
seções de um mesmo.
É o fim um começo
e o começo, o fim.

O desejoso amor dos sábios
o fel dos loucos;
e o mal dos poetas,
ansiado fim o é:
Amar é desejar morrer.

Amar é conseguí-lo.


...


Pássaros negros; sua vitória é desilusão
como casas tantas valeriam um dar de mãos,
como corações tantos um olhar e chão?
 Maleáveis ou graciosos,
quão forte são suas almas em resistir seu caos?


24 de maio de 2012

Sina


Comer, comer, comer!!! Trabalhamos, ganhamos dinheiro, concebemos doenças, engordamos, perdemos horas fazendo, limpando resíduos, planejando, comprando; saímos para comer, compramos utensílios, transportamos, poluímos, discutimos sobre o que comer ou não. Gastamos enorme energia digerindo, nos cansamos, comemos demais, passamos mal; gastamos com médicos, dentistas, nutricionistas, restaurantes... nos viciamos, amaldiçoamos e amamos.
Esta é nossa sina e, pensando bem nela... Acho que vou viver de luz!

21 de maio de 2012

Arthur Rimbaud



Nasceu em Marselha, na França, em 1854. Foi um artista muito precoce, suas maiores obras foram escritas durante a adolescência. Ele ganhou fama e prestígio tão rápido que ninguém menos que o escritor Victor Hugo o chamou de “jovem Shakespeare”. Mas apesar de ter escritos textos e poemas brilhantes que influenciaram as artes e a literaturas modernas, a carreira de Rimbaud durou pouco, aos 20 anos largou a poesia e começou a se dedicar totalmente à ideologias políticas e à vida mundana. O rapaz era tão inquieto, que viajou por 3 continentes guerreando pelas suas ideias antes de falecer aos 37 anos, vítima de câncer.



Sensação
Pelas noites azuis de verão, irei em atalhos sob a lua,
Picotado pelos trigos, pisar a grama pequena:
Sonhador, sentirei nos pés o frescor que acena.
Deixarei o vento banhar minha cabeça nua.
Não falarei, não pensarei em nada sequer:
Mas me subirá na alma o amor soberano,
E irei longe, bem longe, feito um cigano,
Pela Natureza — feliz como se estivesse com uma mulher.

Ontem

São as tardes de inverno chegando. A fria face e o calor do chá das cinco. Quão bom são os cafés e lareiras. Lembrança dos pássaros indo cedo pelo anoitecer logo, as folhagens sibilando o sussurro da gélida brisa. O rosto na vidraça vendo mais que apenas o deitar do dia. Tingindo-se de morte, vinha em lugar a lua plácida, das noites estreladas de Minas. O infinito de tão a fazer-nos pequenos sob; em revelações, das fugazes histórias do tempo. Como luz de tarde, era a estrada ao luar cheio. Pés altos, no saltitar da cantiga. A casinha quente das nuvens de sonho e chuvas de estrelas.

 Então vinham as fogueiras, danças e risos; quão! Amigos-irmão e campo junto, a relva crescia sobre alvas canelas das botas azuis. Curtos espaços mais, ia-se ao além dourado, montanhas longe do fruir juventude. O vale das fadas.

 Eram-se vagas memórias de um passado ido. Talvez aqueles olhos de fogo ainda estivessem aqui, talvez os campos ainda fossem o inteiro todo. Talvez os passos largos seguissem ao longe; mas nunca deixassem aquilo passar. A eternidade faz-se no existir, sua continuidade é a febre dos desejos. 

 Ainda lembro-me do fogão a lenha sentada, de certas palavras ao vento e promessas ao futuro. O futuro chega, mais que nunca passa o antes, quem sabe o agora? Se ocorreram fatos já não sei, mas estes sonhos distos são as vagas de águas minhas.













  


E aquela que dizia "Passe tempo, passe", 
é o calor dos olhos sorridentes. O efêmero 
dos amanhãs jamais.
.

19 de maio de 2012

Divagações aleatórias

Como face plena, não mais que a sua, ou de tantos outros além. O real poder era o das vagas corridas, mar além horizonte e cancioneiros movedoiros de tão. Fatídico dos cantos das formas e cores, formados marcantes no ademais das existências. O fruir dos moiros, dos fracos, faria grande o cantar amante. Desluz tamanha, grandes formas; o jamais faria, do sempre ao infinito.  Tais passos largos, fraquezas da juventude que lhe impera. Olhos do profundo desalento; presos em profundezas mar de si, mas de lá mais ninguém, apenas único solitário. Gaivotas riem águas acima, ondas florescem em ressaca, mas nada muda lá no fundo; o oceano é berço das eras.
Atrevido a mergulhar fundo, nada mais seria que suspiro fim de seus passos. Podendo cortar quilômetros e jamais haver alcançado lugar algum. Não se toca fundo oceano, se é. Não se forma além dos tantos rios e pororoca unidades outras em desvio do que antes era-se. Mar já é rio; nascentes, ciclo inteiro.
Cada qual a seu modo, guarda embrião de passos tantos. Próprio e outros.
 Assim, como poderiam criar-se vocês para escolhas de própria velhice ou juventude, transformando e recondicionando sua própria estrutura, se esta como semente, já guarda essência de árvore inteira. Em ditos outros, não faria-se esta a vontade própria, mas a do que o programa é apenas repercussor. Sem livre, como poderiam ser ou estar em universo inteiro, classes e formação? Vontades próprias ou pensamentos? Talvez o visto aqui, seja apenas grave efeito de luz e cérebro. Nada mais.
O efeito escuro, não existindo de fato, em amor-pensamento, a alma daqueles tantos que ali vivem. E aqui também, introjetado no mundo das maias e ilusões. Talvez seja este o dualismo tão visto, que de dois não há, apenas o um dos grandes. Nós pequenos assim, vemos plano fosco, e não vemos. Sendo pois tal o milagre.
Sozinho cheio, grandes seriam prantos caso outros ali não encontrassem passos meus. Não se sabe águas, ou pés-de-pato, mas correndo certas profundezas.  Gratidão a minha pela solidão não cravar-se sufocante, pois são os que detém a estaca. Felizes as quintas feiras, capuccinos e conversas ares.




21 de abril de 2012

Lúcidos


Filhos de era nova, filhos de sol e lua. Cantai louvores a si, correi campos infinitos, corei coros lúcidos. Movei barreiras, soprei massas, formei vidas. Vossa face percorrestes mortes tantas, varridas pelo chão dos miseráveis, vossos olhos vísseis cantigas no fogo das armas e pavor no sentido palpitante batido. Passos largos ao infinito do outro,caminhos traçados e lascivas torrentes de glórias assíduas das mais fortes comarcas do jamais existir. Quão mais poderíeis confraternizar-vos com tal aspecto de maldita face? Poderíeis alguém desprover-se da máscara e olhar verdade nua, olhos a olhos? Poderíeis realidades criar com apenas suspiro de expressão; ou mundos novos, de olhar único a outro ponto dos céus ou mares de seu interno corrido? Ainda viveis enquanto outros tangem-vos muros e corpos caídos? Onde estais?


De grito há o desespero, jamais fostes tão presa, geração dos desesperados. Jamais tão tristes, jamais tão loucos. Narcotizados novos em fuga do que jamais chegou a existir; podeis ouvir cantar os pássaros da nova era? Enquanto corpo vosso definha-os, força mais os tristes pesares. Como geração nova pode cair em tamanho esquecimento?


Aqueles do mundo a mudar, aqueles do agora ou nunca. Do nunca. A geração que veio chorar as tristezas do mundo, e mover espaços ao futuro dos rijos passos, fronte em porte. Lutai pelo bem de si, de outros e todos; lutemos. Tantos caminhos já traçados a frente encontrados, mas tanto mais a criardes próprio; não prefirais morrer tanto, onde buraco mesmo caído por outros foi; o medo da vitória tange- vos face vindoura; corpos de luz. Tais, movidos passionais por tão; tanto sente, tanto pensa, que o fim exala-se na escuridão, do desconhecido. Próprio de forma movida outra.


Sois mortes dos tantos, sois vida dos demais. Vossa arma é alma grande, vosso pesar é o pranto dos caídos; vossa dor asas são; voai finalmente!

 

Obs.: Como é percebido, o texto esta em segunda pessoa; caso haja algum erro de concordância, conjugação ou forma verbal, peço que seja citados abaixo. Grata.

29 de janeiro de 2012

Ideia


Olhos desfoques, ao longe; viam uma mente cheia de realidade novas. Estas, grandes ao crânio, escorriam pelos cabelos vermelhos, passavam velozes pelos ombros magros, cobertos por cetim escuro; enterravam-se fundo no peito túmido e corriam mais e mais pelos membros, tronco inteiro, quadris, sexo, glúteos, coxas e pernas compridas. Por fim, tocavam os adoráveis pés descalços; por estes caminhavam em menor velocidade, causando pouco de cócegas. Enchiam-se de vigor então, para o grande salto. Deixando o corpo de origem, plantavam-se as ideias no chão, fundo, onde germinariam criando nova e mais suculentas. Um dia, seriam devoradas de todo, novamente, por outros olhos, outras bocas e, escorreriam velozmente por outros corpos; dos quais, tirariam novíssima forma de existir.

Mas nestes olhos profundos, encontraram terra mais fértil que jamais. Desfrutando do deleite de tempo e sonhos; eram cultivadas e aprazeradas por pensamentos. Assim, as ideias sementes, cultivadas, relacionadas, enxugadas, exortadas, consumidas, devoradas, modificadas e reproduzidas pelo tão incansável pensar; vigoravam pelo corpo, em essência e desinibiam-se em palavras ditas e escritas.

 As ditas, voavam no ar, como fragrância de mais puro perfume; como tal, algumas fortes, outras suaves, algumas fracas de rápida desaparição, outras fixas e duradouras. Existem também as mutantes, que chegam de leve e vão tomando vulto, outras enganam, parecem estrondo, mas não passam de breve floral. Incomodam ou gracejam e ficam nas mentes, seja marcando amores, seja derrotas. Contudo, existem em tempo de brisa, que logo perdem-se no ar do tempo e do esquecimento. Para tanto, existe a escrita. Ideia em versos ou rimas, de prosa a simples linha; de efeito ou não. Mostram-se caladas, mas falam alto, tão, que suas vozes ecoam pelos mais remotos tempos; de prístinos à desfoques.

Algumas ideias (ah!, estas têm sorte!), são movidas leve aos olhos, mas afundam-se tão na cabeça, que acabam por atravessá-la e escorrer pela boca; que fechada, deixa o acúmulo pela garganta. Faringe, laringe, esôfago e escorre pelo estômago. Este assustado, revira-se de salto e devolve a intrusa aos "acimas". E chega a tal da ideia novamente na boca, já não certo o primeiro orifício, tenta outro, mais incerto ainda. Fecha-se sempre, para abrir-se novamente. No aguardo, salta pela traqueia, revira-se pelos brônquios, estreita-se nos bronquíolos, para aninhar-se fundo nos alvéolos. Estes, aparente segurança, enganam novamente e deixa a ideia passar para as famintas hemácias do sangue. Caminho longo! Passam pelo corpo todo, cada célula se impregna dessa ideia viajante. Entra, sai, pelas veias puras e venosas; cansa-se. Adormece quase, de tanta caminhada; não por tempo longo, contudo. 

No ritmo constante, põe-se "dormindinha" num espaço maior, sujo, mas grande. A artéria aumenta o pulsar, que pulsa e pulsa e pulsa. Neste alegre nutar, pulsa tão forte, que vê-se ademais, num lugar de pura agitação. A ideia acorda quente, gosta do bater e por fim, fica. Esta ideia, foi para o coração, terra fértil e forte de raiz em seu mais profundo chão.

Enormes ficam neste solo-coração, no palpitar de constante e pura agitação. Já semeada ideia pelo corpo todo, fundo e forte cresce. A protuberância não tarda a aparecer, mostra-se ainda mais firme pelo corpo, vai crescendo árvore, sai pela boca, olhos, ouvidos. Na cabeça atinge seu céu, onde ramifica em frutos e flores. Pelos membros, ganha novos ares e matéria; de pura assunto ou depuração, torna-se viva e mais pura ação!

Sina de tão, vagante de mundo, universo. Tanto purificação, quanto fundo de poço. A mais poderosa e maior, muda não só um ser, mas toda uma nação. Estas pedem e clamam por aquelas, movendo tudo e todos quando acham, enfim, sua maior satisfação.


28 de janeiro de 2012

Igrejinha do Ó (Sabará-MG)





Pequenina doce casa, onde entra-se logo e perde-se de todo. Na aparição, quase, tão pura realeza, quanto pudor de construção. É o que mais se cria das tantas antíteses paradoxais, de fora nada, mas tudo interior. Não nada mal, ou tudo arrivismo, mas simples nas complexidades, singela nas grandezas, nos olhares, nas feições. Das chinesas formas nas paredes, junto as tantas outras demais, união histórica. E que beleza! Puramente e lindamente, barroco.
 Formas flúidas nas pardes, cheias de histórias encontradas. Os pássaros fênix, aos cantos  em canto de fogo, rasantes a observar a dama do autar. Sobre cinco homens, crianças ou anjos, ergue-se aos céus em nuvens, nuvens de gente. Sob rei, sobre dono de torre, abre porta lateral, pequena, para uma salinha a mais. Pergunta-se ao autar se subir se pode, não mas sim; a sedução pura das formas, nos chama. Lá mais quadros, pinturas tantas e porta. Paredes cobertas em, sacadinhas pelos cantos.
  Da porta dentro, quase nada; acha-se. Mesa grande, madeira pura, mais e mais história. Mas o teto não engana, ou quase. O céu dos espelhos, onde quase traga-se a si, para bem junto. Quase, ou não. O cheiro da madeira antiga, das tantas pessoas qua ali passaram, das tantas missas de morte e vida. Tudo fica, mas tudo se esvai; pelo porder do tempo, que esta é vencedora e mensageira, vão-se indo. Tudo se vai; mas quase fica. Quase...





20 de janeiro de 2012

Juíso de libertação


Vemos as ondas de nosso mar, por pura criação, de julgamento final a ressurreição. Podendo existir de fato nesta plano de encouraçada prisão, assim, do tempo-espaço vemos a feição da pura arte, luz. Esta nos possibilita, mas nos prende; criando-nos mais profunda ordem de libertação. Feitos essência da mais pura vida, do "eu" único, constante. Mas vida esta, enclausurada em tamanha manipulação de tantas leis e paradgmas, faz-se e faz-nos, por consequência instáveis, em ambiente de forte coerção. Pelos desejos libertários, os altos vôos, rasantes nas alturas! Quem não o desejaria? E intrinseco em sua vontade, não esta de fato, mais conforme ato, de livrar-se da forte lei de gravitação? Atando-nos forte ao solo, impedindo o ser desprovido das mais profundas barreiras. Ademais, jamais existiríamos sem a maior de nossas barreiras, jamais o ato de pensar e angustiar-se sobre, seria possível, se o tal “sobre”, não nos fosse a única barreira de descobri-lo de fato. Assim, podemos possuir todas as peças do jogo, mas de que adianta? O que fazer com algo que nem ao menos existe a nós?

Vivemos em universo redoma, mas vivemos. Assim, surgem de lugar algum, as penas soltas no ar. Tocamo-as, sentimo-as, desejamo-as. Asas dos anjos, das desconhecidas formas, ou desformas. Almejamos os céus, as estrelas! Pelo juíso dos loucos e a loucura dos ajuizados, criamos formas das mais impossiveis, improváveis; destarde todas formas. Presos eterno no plano destas, queremos em melhor face a luz e trevas, o caos! Existimos no ato maior de nossa morte, o nascimento é o fim. Num ponto único, na mutação, no infinito nada. Deste somos filhos gerados, mas enfim, criados por tudo.

Os 20 passos ao juíso final, das vitórias, enforcados, caos... finalmente, chegamos. Neste, as trombetas mensageiras, são soadas. Somos pegos pela extasiada exaltação emocional e mental. A era do amor e da divina rebeldia. Plenos de nós mesmo, de feitos, desfeitos, surgidos, mortos; mas por nós mesmos, acalorados de feições próprias, plenas. Podemos sentir a chuva de ouro sobre a pele, da intumescencia dos órgãos, da salvação. Assim, enxarcados da mais pura glória, descobrimos finalmente nosso existir deus, nos presente sempre. O tal universo próprio, a fatídica liberdade. Todos por queda, ou ascenção, ressurgimo-nos infinitamente no exato agora. Presente, por si dádiva, de morte e ressurreição eternos. O ponto infinito entre o nunca e o jamais: Humano. 

“Humano, demasiado humano”.