Olhos desfoques, ao longe; viam uma mente cheia de realidade novas. Estas, grandes ao crânio, escorriam pelos cabelos vermelhos, passavam velozes pelos ombros magros, cobertos por cetim escuro; enterravam-se fundo no peito túmido e corriam mais e mais pelos membros, tronco inteiro, quadris, sexo, glúteos, coxas e pernas compridas. Por fim, tocavam os adoráveis pés descalços; por estes caminhavam em menor velocidade, causando pouco de cócegas. Enchiam-se de vigor então, para o grande salto. Deixando o corpo de origem, plantavam-se as ideias no chão, fundo, onde germinariam criando nova e mais suculentas. Um dia, seriam devoradas de todo, novamente, por outros olhos, outras bocas e, escorreriam velozmente por outros corpos; dos quais, tirariam novíssima forma de existir.
Mas nestes olhos profundos, encontraram terra mais fértil que jamais. Desfrutando do deleite de tempo e sonhos; eram cultivadas e aprazeradas por pensamentos. Assim, as ideias sementes, cultivadas, relacionadas, enxugadas, exortadas, consumidas, devoradas, modificadas e reproduzidas pelo tão incansável pensar; vigoravam pelo corpo, em essência e desinibiam-se em palavras ditas e escritas.

As ditas, voavam no ar, como fragrância de mais puro perfume; como tal, algumas fortes, outras suaves, algumas fracas de rápida desaparição, outras fixas e duradouras. Existem também as mutantes, que chegam de leve e vão tomando vulto, outras enganam, parecem estrondo, mas não passam de breve floral. Incomodam ou gracejam e ficam nas mentes, seja marcando amores, seja derrotas. Contudo, existem em tempo de brisa, que logo perdem-se no ar do tempo e do esquecimento. Para tanto, existe a escrita. Ideia em versos ou rimas, de prosa a simples linha; de efeito ou não. Mostram-se caladas, mas falam alto, tão, que suas vozes ecoam pelos mais remotos tempos; de prístinos à desfoques.
Algumas ideias (ah!, estas têm sorte!), são movidas leve aos olhos, mas afundam-se tão na cabeça, que acabam por atravessá-la e escorrer pela boca; que fechada, deixa o acúmulo pela garganta. Faringe, laringe, esôfago e escorre pelo estômago. Este assustado, revira-se de salto e devolve a intrusa aos "acimas". E chega a tal da ideia novamente na boca, já não certo o primeiro orifício, tenta outro, mais incerto ainda. Fecha-se sempre, para abrir-se novamente. No aguardo, salta pela traqueia, revira-se pelos brônquios, estreita-se nos bronquíolos, para aninhar-se fundo nos alvéolos. Estes, aparente segurança, enganam novamente e deixa a ideia passar para as famintas hemácias do sangue. Caminho longo! Passam pelo corpo todo, cada célula se impregna dessa ideia viajante. Entra, sai, pelas veias puras e venosas; cansa-se. Adormece quase, de tanta caminhada; não por tempo longo, contudo.
No ritmo constante, põe-se "dormindinha" num espaço maior, sujo, mas grande. A artéria aumenta o pulsar, que pulsa e pulsa e pulsa. Neste alegre nutar, pulsa tão forte, que vê-se ademais, num lugar de pura agitação. A ideia acorda quente, gosta do bater e por fim, fica. Esta ideia, foi para o coração, terra fértil e forte de raiz em seu mais profundo chão.
Enormes ficam neste solo-coração, no palpitar de constante e pura agitação. Já semeada ideia pelo corpo todo, fundo e forte cresce. A protuberância não tarda a aparecer, mostra-se ainda mais firme pelo corpo, vai crescendo árvore, sai pela boca, olhos, ouvidos. Na cabeça atinge seu céu, onde ramifica em frutos e flores. Pelos membros, ganha novos ares e matéria; de pura assunto ou depuração, torna-se viva e mais pura ação!
Sina de tão, vagante de mundo, universo. Tanto purificação, quanto fundo de poço. A mais poderosa e maior, muda não só um ser, mas toda uma nação. Estas pedem e clamam por aquelas, movendo tudo e todos quando acham, enfim, sua maior satisfação.