31 de outubro de 2012

Olhos


Sou a cantiga leve das florestas, dos campos e jasmins. A brisa leve sobre as folhas eriçadas pela forte neblina. As gotas de orvalho, cristalinas em argênteo fruir nas flores; cantam gaivotas ao longe, mas aqui, apenas vivem as corujas.
Lado a lado, comportam-se, ora grande olhos, ora longa calda. Esta dos felinos sorrateiros e misteriosos; aqueles das corujas, ágeis, rápidas e sábias. Ambos noite, lugar pleno: o espaço desejado.
Desce a chuva então, das gotas grossas e lua cheia. Sussurra o vento e a noite se fecha. Vezes correm esquilos a seus campos seguros, vezes saem das casas a deliciar-se nas estrelas da colina.

Engrossa gotas: até as cobras se escondem. Nestas vezes, fogueiras correm chamas de difícil tento, então acendem-se velas, ou fecha-se a escuridão soberana. Ninguém deseja infringir a fúria das flores, que dançam forte ao nutar do cenário. Aí somos tal as águas do riacho claro, grandes as formas, pequenas as pretensões, mínimos os humores. Dança-se em silêncio e a pura melodia é formada, já que as melhores músicas são as que tocam o silêncio da alma.



Fica-se bem assim.
Feliz Samhain!

27 de outubro de 2012

Casa escura


Agora vejo páginas em branco e não resisto ao desejo: escrevo mesmo.
Aqui estão os mesmos espaços e tempos que me fazem assim ser: Eu e eu.
Dificulta-me a vida estudantil estas variações repentinas de ânimo. E por ânimo digo todo ele, todinho. Nem comer, estudar, dormir... nada apetece. Fico por escrever mesmo, que sempre foi a melhor forma de fugir de mim mesma, entrando mais fundo no meu próprio ser.
Há um certo medo do que pode ser encontrado, mas nada mais do que possa ser perdido. Antes encontrar que perder, antes terror que vazio.
O vazio nada quer, nada move, nada é. Fica lá simplesmente em si, não pede atenuantes, nem bocejos, nem desejo algum. Vazio é o desespero maior, é sim. Aquele não remediável, sumindo e aparecendo do mesmo ponto. É difícil assim. Gostaria de saber ao menos o que gera ou gerou isso em mim; este desespero agudo da solidão.
Ela chega, basta que todos se vão. E fica. Sei racionalmente que um ou outro chegará ao fim do dia, ou um dia qualquer, sei que ainda posso andar por aí e encontrar amigos, que posso telefonar e ouvir vozes reconfortantes; mas de nada adianta. A sensação continua e continua, permanece inalterada profunda encravada no peito. Aí escrevo. Aí escrevo mais. Talvez assim crie personas novas a povoar o vazio da solidão.

23 de outubro de 2012

Paixões, colchões, limões



Deixem todos, deixem ir, são estes, aqueles e novamente então.
Deixem, passam, logo então, buscam, latem e correm mão;
Deixem as deixas de seus "entões", madeixas e vento mergulhe: chão.

Gostem, amem, idolatrem, suicide.
Gosem, clamem, sussurrem, grite.
Mostrem seus "entões", escancarem, desnudem, desbrave!


Sois, sóis, desconexos, egoístas, "estrelinhas";
Ignore, reprovando, mas more, more ainda.
Xingue, palpite, bata, espanque, mate.
Mas ainda mora, ainda mora e mora e cora: Aí.

Queimam-se fotos, retratos, sorrisos, mensagens, presentes, passados...
Mas das cinzas nascem, resurgem, e brotam, e crescem, fornicam; futuros.
Cansados, casados; comprados. Mas vive e mora e corre ainda e ainda; ainda:
Existe e vida vivida é triste.