29 de janeiro de 2012

Ideia


Olhos desfoques, ao longe; viam uma mente cheia de realidade novas. Estas, grandes ao crânio, escorriam pelos cabelos vermelhos, passavam velozes pelos ombros magros, cobertos por cetim escuro; enterravam-se fundo no peito túmido e corriam mais e mais pelos membros, tronco inteiro, quadris, sexo, glúteos, coxas e pernas compridas. Por fim, tocavam os adoráveis pés descalços; por estes caminhavam em menor velocidade, causando pouco de cócegas. Enchiam-se de vigor então, para o grande salto. Deixando o corpo de origem, plantavam-se as ideias no chão, fundo, onde germinariam criando nova e mais suculentas. Um dia, seriam devoradas de todo, novamente, por outros olhos, outras bocas e, escorreriam velozmente por outros corpos; dos quais, tirariam novíssima forma de existir.

Mas nestes olhos profundos, encontraram terra mais fértil que jamais. Desfrutando do deleite de tempo e sonhos; eram cultivadas e aprazeradas por pensamentos. Assim, as ideias sementes, cultivadas, relacionadas, enxugadas, exortadas, consumidas, devoradas, modificadas e reproduzidas pelo tão incansável pensar; vigoravam pelo corpo, em essência e desinibiam-se em palavras ditas e escritas.

 As ditas, voavam no ar, como fragrância de mais puro perfume; como tal, algumas fortes, outras suaves, algumas fracas de rápida desaparição, outras fixas e duradouras. Existem também as mutantes, que chegam de leve e vão tomando vulto, outras enganam, parecem estrondo, mas não passam de breve floral. Incomodam ou gracejam e ficam nas mentes, seja marcando amores, seja derrotas. Contudo, existem em tempo de brisa, que logo perdem-se no ar do tempo e do esquecimento. Para tanto, existe a escrita. Ideia em versos ou rimas, de prosa a simples linha; de efeito ou não. Mostram-se caladas, mas falam alto, tão, que suas vozes ecoam pelos mais remotos tempos; de prístinos à desfoques.

Algumas ideias (ah!, estas têm sorte!), são movidas leve aos olhos, mas afundam-se tão na cabeça, que acabam por atravessá-la e escorrer pela boca; que fechada, deixa o acúmulo pela garganta. Faringe, laringe, esôfago e escorre pelo estômago. Este assustado, revira-se de salto e devolve a intrusa aos "acimas". E chega a tal da ideia novamente na boca, já não certo o primeiro orifício, tenta outro, mais incerto ainda. Fecha-se sempre, para abrir-se novamente. No aguardo, salta pela traqueia, revira-se pelos brônquios, estreita-se nos bronquíolos, para aninhar-se fundo nos alvéolos. Estes, aparente segurança, enganam novamente e deixa a ideia passar para as famintas hemácias do sangue. Caminho longo! Passam pelo corpo todo, cada célula se impregna dessa ideia viajante. Entra, sai, pelas veias puras e venosas; cansa-se. Adormece quase, de tanta caminhada; não por tempo longo, contudo. 

No ritmo constante, põe-se "dormindinha" num espaço maior, sujo, mas grande. A artéria aumenta o pulsar, que pulsa e pulsa e pulsa. Neste alegre nutar, pulsa tão forte, que vê-se ademais, num lugar de pura agitação. A ideia acorda quente, gosta do bater e por fim, fica. Esta ideia, foi para o coração, terra fértil e forte de raiz em seu mais profundo chão.

Enormes ficam neste solo-coração, no palpitar de constante e pura agitação. Já semeada ideia pelo corpo todo, fundo e forte cresce. A protuberância não tarda a aparecer, mostra-se ainda mais firme pelo corpo, vai crescendo árvore, sai pela boca, olhos, ouvidos. Na cabeça atinge seu céu, onde ramifica em frutos e flores. Pelos membros, ganha novos ares e matéria; de pura assunto ou depuração, torna-se viva e mais pura ação!

Sina de tão, vagante de mundo, universo. Tanto purificação, quanto fundo de poço. A mais poderosa e maior, muda não só um ser, mas toda uma nação. Estas pedem e clamam por aquelas, movendo tudo e todos quando acham, enfim, sua maior satisfação.


28 de janeiro de 2012

Igrejinha do Ó (Sabará-MG)





Pequenina doce casa, onde entra-se logo e perde-se de todo. Na aparição, quase, tão pura realeza, quanto pudor de construção. É o que mais se cria das tantas antíteses paradoxais, de fora nada, mas tudo interior. Não nada mal, ou tudo arrivismo, mas simples nas complexidades, singela nas grandezas, nos olhares, nas feições. Das chinesas formas nas paredes, junto as tantas outras demais, união histórica. E que beleza! Puramente e lindamente, barroco.
 Formas flúidas nas pardes, cheias de histórias encontradas. Os pássaros fênix, aos cantos  em canto de fogo, rasantes a observar a dama do autar. Sobre cinco homens, crianças ou anjos, ergue-se aos céus em nuvens, nuvens de gente. Sob rei, sobre dono de torre, abre porta lateral, pequena, para uma salinha a mais. Pergunta-se ao autar se subir se pode, não mas sim; a sedução pura das formas, nos chama. Lá mais quadros, pinturas tantas e porta. Paredes cobertas em, sacadinhas pelos cantos.
  Da porta dentro, quase nada; acha-se. Mesa grande, madeira pura, mais e mais história. Mas o teto não engana, ou quase. O céu dos espelhos, onde quase traga-se a si, para bem junto. Quase, ou não. O cheiro da madeira antiga, das tantas pessoas qua ali passaram, das tantas missas de morte e vida. Tudo fica, mas tudo se esvai; pelo porder do tempo, que esta é vencedora e mensageira, vão-se indo. Tudo se vai; mas quase fica. Quase...





20 de janeiro de 2012

Juíso de libertação


Vemos as ondas de nosso mar, por pura criação, de julgamento final a ressurreição. Podendo existir de fato nesta plano de encouraçada prisão, assim, do tempo-espaço vemos a feição da pura arte, luz. Esta nos possibilita, mas nos prende; criando-nos mais profunda ordem de libertação. Feitos essência da mais pura vida, do "eu" único, constante. Mas vida esta, enclausurada em tamanha manipulação de tantas leis e paradgmas, faz-se e faz-nos, por consequência instáveis, em ambiente de forte coerção. Pelos desejos libertários, os altos vôos, rasantes nas alturas! Quem não o desejaria? E intrinseco em sua vontade, não esta de fato, mais conforme ato, de livrar-se da forte lei de gravitação? Atando-nos forte ao solo, impedindo o ser desprovido das mais profundas barreiras. Ademais, jamais existiríamos sem a maior de nossas barreiras, jamais o ato de pensar e angustiar-se sobre, seria possível, se o tal “sobre”, não nos fosse a única barreira de descobri-lo de fato. Assim, podemos possuir todas as peças do jogo, mas de que adianta? O que fazer com algo que nem ao menos existe a nós?

Vivemos em universo redoma, mas vivemos. Assim, surgem de lugar algum, as penas soltas no ar. Tocamo-as, sentimo-as, desejamo-as. Asas dos anjos, das desconhecidas formas, ou desformas. Almejamos os céus, as estrelas! Pelo juíso dos loucos e a loucura dos ajuizados, criamos formas das mais impossiveis, improváveis; destarde todas formas. Presos eterno no plano destas, queremos em melhor face a luz e trevas, o caos! Existimos no ato maior de nossa morte, o nascimento é o fim. Num ponto único, na mutação, no infinito nada. Deste somos filhos gerados, mas enfim, criados por tudo.

Os 20 passos ao juíso final, das vitórias, enforcados, caos... finalmente, chegamos. Neste, as trombetas mensageiras, são soadas. Somos pegos pela extasiada exaltação emocional e mental. A era do amor e da divina rebeldia. Plenos de nós mesmo, de feitos, desfeitos, surgidos, mortos; mas por nós mesmos, acalorados de feições próprias, plenas. Podemos sentir a chuva de ouro sobre a pele, da intumescencia dos órgãos, da salvação. Assim, enxarcados da mais pura glória, descobrimos finalmente nosso existir deus, nos presente sempre. O tal universo próprio, a fatídica liberdade. Todos por queda, ou ascenção, ressurgimo-nos infinitamente no exato agora. Presente, por si dádiva, de morte e ressurreição eternos. O ponto infinito entre o nunca e o jamais: Humano. 

“Humano, demasiado humano”.